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Um Retrato

Imagem
Eu aqui, dentro de mim, sou tantas outras, sou tão sem fim... Distante e evasiva, o olhar perdido da menina no quadro de Renoir. Uma cortina, uma neblina cobrem meu gesto, meu jeito, desajeitado caminhar. Tento compor o meu retrato, um relatório abstrato que boa rima não tem... Mas se assim o aceito, por vê-lo belo e imperfeito, me reconheço também. *Imagem: Auto-Retrato , de Tarsila do Amaral [1918]

Exposição

Já não se trata apenas dos meus pensamentos. Já não diz respeito apenas aos meus sonhos. Já não é meu segredo. Nada mais é só meu. É a minha letra que não mente. É o meu verbo que está todo impregnado de você.

Canto

Ora, ora! Vamos embora que o andar da hora não nos espera! Veja, veja! Segue a peleja, que a paz que goteja é pura quimera! Siga, siga! Alcance e bendiga a mão tão amiga que longe te espera! Cante, cante a alegria distante! Só te importa ir avante, ser além do que era!

Do lado de cá

Do lado de cá interpreto sinais, procuro vestígios, desculpas, motivos para entender o que não é meu. Do lado de cá eu traço rotas para a minha possível travessia, mas minha bússola se engana, sempre se engana. Do lado de cá monto quebra-cabeças, costuro uma colcha de retalhos: mil pedaços do que poderia ser, compondo um todo que não ganha vida. Do lado de cá bate sol, tem água e comida, tem chuva e tem estio. Tudo corre bem, para quase todos. Só no meu olhar falta um pouco de brilho. Do lado de cá permaneço, porque ponte ainda não há; ou apenas existe e persiste o meu medo de atravessar.

Teu Olhar

Teu olhar, um segredo: posso eu, logo cedo, algo novo prever? Teu olhar faz mistério, e se torna tão sério quando hesita em me ver. Teu olhar, meu espelho: mau exemplo ou conselho, o que vem me contar? Teu olhar, falsa mágica: uma nota tão trágica pode aqui retratar. Teu olhar, um veneno: sentimento pequeno faz crescer e aquece. Teu olhar, uma cura: é encontro e procura; me enxerga e esquece. Teu olhar, quase engano, levemente profano: quanto quer me iludir? Teu olhar toda hora me faz ir mundo afora, sem distância medir. Teu olhar eu encaro: tem um jeito tão raro, um feitio de dor. Teu olhar interrogo: é que espero, tão logo, entender tua cor.

Run!

Life is happening out there while you're standing here, only thinking about it.

Herança

Você partiu. Morreu na minha realidade. Ficaram as lembranças, um inventário de momentos, de ideias, de palavras, e de um silêncio derradeiro que me cortou os pulsos sem derramar sangue, que me calou a admiração, plantou insultos na minha boca, violentou minha esperança. Não houve anúncio; fiquei suspensa, tal qual equilibrista na corda bamba do desencanto, do desencontro... desassossegada espera. Hoje eu não sei de muitas coisas. Não sei o que você levou de mim, porque não há vazio algum aqui. Não houve nem há abismo entre nós, e como isso é possível, também não sei. Eu só conheço a minha herança, só vejo agora o que você me deixou. Presença. Verdade. O direito adquirido de te lembrar. E me liberta saber que será sempre meu, e todo meu, o direito de sentir saudade.