Postagens

Inverno

Árvores nuas, tardes cinzentas, um dia que corre lento. Olhos semi-cerrados, tudo parece bocejar. Meu inverno se emoldura nessa espera, grande espera por tanta coisa, que eu já nem sei enumerar. Espero por tantos, e também por mim mesma; espero por cada novo dia que este frio vento me trará. Espero o despertar da primavera da minha alma, que um dia ganhará o mundo, seguirá seu rumo, fazendo da minha existência esse interminável verão que eu quero experimentar.

Eu disse adeus

Hoje eu te disse adeus. Não, não foi um até logo. Eu não escondi tua foto no fundo da gaveta; eu rasguei, pois não posso te devolver. Pensar em ti tornou-se um peso, que eu já não suporto carregar. Perdoe-me, mas não é fraqueza; eu apenas tentei ser forte por tempo demais. Eu andei tão mal acostumada com tua atenção, com teu olhar. Quando aqui estavas, eu era única; na tua ausência, eu sou mais uma. Eu nem tive tempo de te dizer as coisas que planejei dizer. Talvez, por sorte, tenhas aprendido a ler meus olhos, meus gestos, minha letra, minhas entrelinhas com tudo que estes queriam te contar. Sei que as lembranças permanecem, eu ainda aprendo a conviver com elas, eu prometo. Agora eu sei, eu entendi. Eu não preciso te esquecer, eu só preciso te deixar partir. Eu não preciso sofrer, eu só preciso te dizer adeus. Adeus.

Silenciei-me

- "O que dizer? Não era pra ser." Sentença tão sensata, a coisa mais exata, que dá tanta raiva de repetir.

Recado

Imagem
Minha letra estava perfumada de alegria, de antecipação e de saudade. Tua resposta veio rasteira, simples, objetiva, sem rodeios... teu jeito torto de carinho que eu nunca entendo. Tudo bem. Eu não vou chorar. O meu olhar não é o teu, e não há nada que seja meu agora. Um dia tudo isso será inundado de sentido, aí eu te decifro! E me decifro junto, combinado. Um dia as peças estarão no lugar certo, os passos compassados, e esse meu desassossego será só uma lembrança, enfim.

Falácia

Eu entendi a falácia do amor. Ela teima em dizer que existe um modelo, que foi predestinado, que é romântico, que será pra sempre. Nosso traço maior, que é a exclusão, transforma o imperfeito em não-amor, em distração, em acidente. Falácia das falácias, esperar seu príncipe, ou sua princesa, cavalo branco, carruagem e outras estórias. Tolice das tolices pensar no perfeito, sonhar o perfeito, esperar o perfeito. O amor perfeito permanece na ideia. Na vida real, só o imperfeito nos pertence.

Sonhos na gaveta

Imagem
Não me desfaço dos meus sonhos, guardo todos numa gaveta. Sonhos envolvem sentimento: sentimento não é perecível. Sonhos envolvem esperança: esperança não tem prazo de validade. Não me desfaço dos meus sonhos, guardo todos numa gaveta. Essa gaveta não tem chave. Sonhos envolvem pessoas: pessoas não combinam com trancas. Lá estão eles, cuidadosamente guardados, protegidos pra que não sejam maltratados pelo tempo, surrados pela hostilidade, constrangidos pela minha desilusão. Eles não morrem sufocados, são arejados pela minha fé, que ainda resiste, sim, apesar de tudo. De tempos em tempos, dou-lhes uma olhada, vejo qual deles já está no tempo de ganhar o mundo, de saltar para a vida. Não me preocupa mais a contagem do tempo, eu sei que eles não morrerão, sei que cada um aguarda a sua hora para acontecer, para ser livre... A gaveta é apenas um estágio, o espaço não é a essência. A essência do sonho será sempre a liberdade.

Um Retrato

Imagem
Eu aqui, dentro de mim, sou tantas outras, sou tão sem fim... Distante e evasiva, o olhar perdido da menina no quadro de Renoir. Uma cortina, uma neblina cobrem meu gesto, meu jeito, desajeitado caminhar. Tento compor o meu retrato, um relatório abstrato que boa rima não tem... Mas se assim o aceito, por vê-lo belo e imperfeito, me reconheço também. *Imagem: Auto-Retrato , de Tarsila do Amaral [1918]