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Somos

somos qualquer ponto
entre o próximo e o distante,
somos qualquer nota
entre o afinado e o dissonante,
somos qualquer tipo,
o mais correto, o mais errante.

somos um e somos todos,
a cada instante,
o agora,
o sempre
e o inconstante.

Tão

Tão felizes dias,
ainda raros dias,
em que não respiro você.

Tão viçosos planos,
aqueles mesmos planos
que hoje tento refazer.

Tão bonito riso,
quase extinto riso,
que nem sei se reconheço.

Tão querida paz,
essa nova paz
que eu sei bem que mereço.

Desejo

Aquele desejo, que é maior que tudo,
De fazer as malas, de cair no mundo!
Começar do zero, sem olhar pra trás.
Seguir qualquer rumo e não voltar mais!

Poeminha da experiência

Fere a palavra e o gesto
a um desejo tão honesto,
desmoronando o que se fez.
Mas logo a lágrima seca,
o tolo coração se aquieta,
e põe-se a sonhar outra vez.

A saudade da moça

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Pelo vidro da janela, lentamente coberto pela chuva, a moça fita. Olha e analisa. Pensa que só.

Não é ócio, nem é vício. Não é doença, nem é desgosto. Vai ver é só saudade.

E se é saudade, é de quê? É de quem, moça?

De nada, de ninguém não. É uma saudade da vida, doída. Saudade do viço, das esperanças na ponta da língua, dos sonhos saltando dos olhos, da vontade de tudo que não podia esperar.

Tem saudade pior que essa não. Saudade que a gente sente da gente, do que fomos um dia, em algum ponto desse longo caminho.

Essa saudade deixa a moça lenta. Ela lembra de quando corria, de como aquela coisa boa (aquela, daquele dia!) passou rápido, que na hora nem sentiu o tanto que podia, o tanto que deveria. Mas era bom, era vida.

A moça na janela fita. Olha e analisa. Pensa que só. Suspira e só.

A pressa está lá fora. A moça só olha. Espera é tudo o que há.

Permanece

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Sinto que sinto saudade, tão insistente vontade de fazer o tempo voltar. Mas o tempo que foge só me rouba a coragem, faz-me assim vacilar.
Vacilo e vasculho, me rendendo à imagem, renegando este fim. Faço a dor ser mais breve, e a saudade mais leve, poesia em mim.

Se...

Tantas palavras seriam ditas,
tantos abraços seriam dados,
e tantos beijos seriam roubados,
e tantos caminhos seriam mudados...
se fosse possível saber que aquele momento
- talvez ao acaso, talvez corriqueiro -
era mesmo a última chance.